Entulho

Distinguindo o trágico do supérfluo

Archive for junho \21\UTC 2013

“Talvez duas crianças tenham morrido para você ter o seu celular”

Posted by iscariotes em 21 de junho de 2013

Fonte: Brasil de Fato

Os consumidores de telefones celulares são chamados a refletir sobre a exploração sangrenta na República Democrática do Congo de uma matéria-prima para esses aparelhos, o tântalo.

“Pode ser que duas crianças tenham morrido para você ter esse telefone celular”, disse Jean- Bertin, um congolense de 34 anos que denuncia o “silêncio absoluto” sobre os crimes cometidos em seu país pela exploração de matérias-primas estratégicas como o coltan (columbita-tantalita). A República Democrática do Congo (RDC) possui pelo menos 64% das reservas mundiais de coltan, nome popular na África central para designar as rochas formadas por dois minerais, columbita e tantalita.

Da tantalita se extrai o tântalo, metal duro de transição, de cor azul acinzentado e brilho metálico, resistente à corrosão e que é usado em condensadores para uma enorme variedade de produtos, como telefones celulares, computadores e tablets, bem como em aparelhos para surdez, próteses, implantes e soldas para turbinas, entre muitos outros. “A maldição da RDC é sua riqueza. O Ocidente e todos que fabricam armas metem o nariz ali”, lamenta Jean-Bertin, que chegou há oito anos à cidade espanhola de Málaga, procedente de Kinshasa, onde vivem seus pais e dois irmãos.

A extração de coltan contribui para manter um dos maiores conflitos armados da África, que causou mais de cinco milhões de mortos, êxodo em massa e violações de 300 mil mulheres nos últimos 15 anos, segundo organizações de direitos humanos. Isto foi reconhecido em 2001 pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que confirmou a existência do “vínculo entre a exploração ilegal dos recursos naturais e a continuação do conflito na República Democrática do Congo”. Um grupo de especialistas convocado pelo Conselho registrou até 2003 cerca de 157 empresas e indivíduos de todo o mundo vinculados, de um modo ou de outro, à extração ilegal de matérias-primas valiosas na RDC.

A exploração de coltan em dezenas de minas informais, salpicadas na selva oriental da RDC, financia os grupos armados e corrompe militares e funcionários. A extração artesanal, sem nenhum controle de qualidade, comporta um regime trabalhista próximo da escravidão e um grande dano ao meio ambiente e à saúde dos trabalhadores, incluindo crianças, segundo o documentário de 2010 Blood in the Mobile (Sangue no Celular), do diretor dinamarquês Frank Piasecki.

No entanto, fontes da indústria, como o Tantalum- Niobium International Study Center (TIC), alertam que as jazidas de coltan na RDC e de toda a região da África central estão longe de serem a fonte principal de tântalo. A Austrália foi o principal produtor desse mineral durante vários anos e mais recentemente cresceu a produção sul-americana e asiática, além de outras fontes, como a reciclagem. O TIC estima que as maiores reservas conhecidas de tântalo estão no Brasil e na Austrália, e ultimamente há informações sobre sua existência na Venezuela e na Colômbia.

A RDC tem outras riquezas naturais igualmente contrabandeadas, como ouro, cassiterita (mineral de estanho), cobalto, cobre, madeiras preciosas e diamantes. Contudo, está em último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano 2011. Neste cenário, as denúncias da sociedade civil organizada apelam cada vez mais aos consumidores de produtos que contêm estes materiais. Na Espanha, a Rede de Entidades para a República Democrática do Congo – uma coalizão de organizações não governamentais e centros de pesquisa – lançou em fevereiro a campanha Não com o meu Celular, para exigir dos fabricantes o compromisso de não usarem coltan de origem ilegal.

O surgimento de novas fontes de tântalo e a reciclagem deveriam ajudar a reduzir a pressão da demanda sobre o coltan congolense. A organização Entreculturas e a Cruz Vermelha Espanhola promovem desde 2004 a campanha nacional Doe seu Celular, para incentivar a entrega de aparelhos velhos para serem reutilizados ou para reciclagem de seus componentes. Os fundos obtidos são investidos em projetos de educação, meio ambiente e desenvolvimento para setores pobres da população. Até julho foram coletados 732.025 aparelhos e arrecadados mais de um milhão de euros, contou ao Terramérica a coordenadora da campanha na Entreculturas, Ester Sanguino.

Entretanto, fundações e empresas dedicadas à reciclagem, ouvidas pelo Terramérica, concordam que seria impossível abastecer com esta fonte uma porção significativa da crescente demanda mundial por tântalo. A pressão do mercado faz com que as pessoas troquem o celular por outro mais moderno de tempos em tempos, por isso a reciclagem, mesmo feita em grande escala, não daria conta, disse ao Terramérica uma fonte da BCD Electro, empresa de reutilização e reciclagem informática e eletrônica. E a telefonia móvel é apenas um segmento das aplicações atuais do tântalo.

Apple e Intel anunciaram, em 2011, que deixariam de comprar tântalo procedente da antiga colônia belga. Nokia e Samsung fizeram declarações similares. A Samsung assegura em sua página corporativa que tomou medidas para garantir que seus terminais “não contenham materiais derivados do coltan congolense extraído ilegalmente”. Na verdade, os códigos de conduta empresariais vieram preencher o vazio de normas taxativas.

O esforço maior é o das Diretrizes da OCDE para Empresas Multinacionais, pois compreende todas as nações industrializadas sócias da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Porém, o longo e opaco circuito do coltan congolense torna difícil demonstrar que tais códigos são cumpridos. Os minerais explorados ilegalmente são contrabandeados através de países vizinhos, como Ruanda e Uganda, para Europa, China e outros destinos.

“Os grupos rebeldes proliferam pela riqueza das terras em coltan, diamantes ou ouro”, disse ao Terramérica o coordenador da organização humanitária Farmamundi na RDC, Raimundo Rivas. Os governos vizinhos são “cúmplices” e “até o momento tudo é apoiado e encoberto pelas empresas beneficiárias, em seu último destino, dessas riquezas”, ressaltou. “Há muitos interesses econômicos em torno do negócio do coltan”, alertou Jean-Bertin. Enquanto isso, na RDC “as matanças são reais. O sangue está por toda parte, e, no entanto, é como se o país não existisse”.

Por isso gera expectativas a decisão da Comissão de Valores dos Estados Unidos (SEC), que, no dia 22 de agosto, regulamentou um capítulo da Lei de Proteção do Consumidor e Reforma de Wall Street, referente aos “minerais de conflitos”. A Lei 1.502 estabelece que todas as empresas nacionais ou internacionais já obrigadas a entregar informação anual à SEC e que manufaturem ou contratem a manufatura de produtos que contenham um dos quatro minerais de conflito (estanho, tântalo, tungstênio, ouro) deverão adotar medidas para determinar sua origem mediante a análise da cadeia de fornecimento.

Contudo, o primeiro informe deverá ser apresentado em 31 de maio de 2014, prazo considerado excessivo por defensores dos direitos humanos, que denunciam os crimes que continuam sendo cometidos na RDC, apesar da presença desde 2010 de uma missão de paz da ONU. Com o olhar dominado pela raiva e sua filha de seis meses nos braços, o congolense Jean- Bertin insiste que os grupos armados “dão armas a muitas crianças e as obrigam a entrar para um ou outro bando”. Para Rivas, “a única solução é um governo forte na RDC, que possa responder aos ataques, e um apoio internacional real que penalize aquelas empresas suspeitas de importar minerais de zonas em conflito”.

Em http://www.brasildefato.com.br/node/10572

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Edward Snowden: ‘Não quero viver em sociedade que faz essas coisas’

Posted by iscariotes em 12 de junho de 2013

Fonte: Diário Liberdade

Estados Unidos – Diário Liberdade – 9 de junho de 2013. Glenn Greenwald, em Hong Kong, entrevista Edward Snowden, o ‘vazador’ de segredos da Agência de Segurança Nacional EUA.

Edward Snowden: Meu nome é Ed Snowden, 29 anos. Trabalhei para a empresa Booz Allen Hamilton como analista de infraestrutura para a Agência Nacional de Segurança dos EUA no Hawaii.

Glenn Greenwald: Antes disso, que outras posições você teve, na comunidade de inteligência?

Snowden: Fui engenheiro de sistemas, administrador de sistemas, conselheiro sênior para a Agência Central de Inteligência, consultor de soluções e encarregado de sistemas de telecomunicações.

Greenwald: Um das coisas que as pessoas mais querem entender é quem é você, o que pensa e porque, num certo momento, você decidiu expor esses materiais e converteu-se em ‘vazador’. Explique às pessoas esse processo, até tomar a decisão.

Snowden: Quando você está em posição em que tem acesso privilegiado, como administrador de sistemas, por exemplo, para todos os tipos de agências da comunidade de inteligência, você é exposto a uma quantidade muito maior de informações, em escala muito maior do que o empregado médio. Todos assistem a coisas que podem ser muito perturbadoras, mas, na carreira de uma pessoa comum, os eventos mais perturbadores aparecem uma, duas vezes. E quando você vê o que vê em base mais frequente, você entende que muitas daquelas coisas são realmente abuso. Se você fala sobre aquilo com as pessoas daquele mesmo meio, onde aquele é o estado normal das coisas, as pessoas tendem a não dar muita atenção e a não tratar como coisa séria; ouvem e mudam de assunto.

Com o tempo, é como se a certeza de que aquilo não pode ser feito, que é errado, que é crime, vai crescendo. Você começa a ter de falar sobre aquilo tudo. E quanto mais você fala, menos atenção lhe dão. Quanto mais você ouve que aquilo não é problema, mais a coisa lhe parece errada, até que você afinal percebe que aquelas coisas têm de ser decididas pelo público, não por alguém que foi simplesmente contratado para trabalhar para o governo.

Greenwald: Fale um pouco sobre como realmente funciona o estado de vigilância norte-americano. Também espionam norte-americanos?

Snowden: A Agência de Segurança Nacional e a comunidade de inteligência em geral está focada em obter inteligência em todos os lugares, por todos os meios possíveis. Eles acreditam, baseados em todos os tipos de autocertificação, que servem ao interesse nacional. Originalmente, viu-se aquele foco muito estreitamente modelado para obter inteligência estrangeira.

Atualmente, cada vez mais estão trabalhando domesticamente. Para fazer isso, a Agência de Segurança Nacional toma por alvo, especificamente, as comunicações de todos. Recolhe tudo, como procedimento padrão. Recolhe as informações em seu sistema, depois filtra as informações e passa a analisar e avalia e armazena por períodos de tempo, simplesmente porque é esse é o meio mais fácil, mais eficiente e mais rendoso de atingir aqueles objetivos. Assim, podem estar interessados em alguém associado a algum governo estrangeiro ou alguém que eles suspeitem que seja terrorista, e coletam as comunicações de todos, para fazer aquele serviço.

Qualquer analista, a qualquer hora, pode tomar qualquer pessoa como alvo, qualquer seletor, em qualquer lugar. O local onde as comunicações serão recolhidas depende do alcance do sensor de redes e da autoridade que cada analista tenha. Nem todos os analistas têm meios para atacar qualquer pessoa. Mas eu, sentado na minha mesa, tinha, com certeza, autoridade para gravar qualquer um: você, o seu contador, um juiz federal e até o presidente, se eu tivesse um endereço de e-mail pessoal.

Greenwald: Um dos detalhes extraordinários desse episódio é que, de modo geral, os vazadores fazem anonimamente o que fazem, e cuidam para preservar o próprio anonimato pelo maior tempo possível, quase sempre esperando conseguir manter-se oculto para sempre. Mas você decidiu fazer diferente: declarou que é você que está por trás dessas revelações. Por que você decidiu agir assim?

Snowden: Acho que o público tem direito a uma explicação sobre as motivações que há por trás das pessoas que invadem a privacidade dos outros, uma invasão que não corresponde ao modelo democrático. O que eu vi acontecer é o governo subvertendo o poder do governo, que é coisa perigosa para a democracia, e em absoluto segredo, com o governo se beneficiando das próprias ações secretas. É como se aqueles agentes tivessem um mandato para prosseguir: “Digam isso e isso à imprensa, e mais isso… E assim o público ficará do nosso lado.” Mas só raramente, na prática, pode-se dizer, nunca, fazem isso, quando acontecem os abusos. Acaba recaindo sobre cidadãos individuais, que são demonizados sempre. Vira uma coisa de “esse pessoal está contra o país. Estão contra o governo. Mas eu não.”

Não sou diferente de ninguém. Não tenho capacidades especiais. Sou só mais um sujeito que senta todos os dias no escritório, vê o que está acontecendo e, um dia, pensa “Mas não me cabe decidir sobre essas coisas, não cabe a ninguém, aqui, decidir sobre essas coisas… Quem tem de decidir sobre isso é o público, se esses programas e essas políticas são certas ou erradas.” Quero que saibam que eu não alterei nada, não modifiquei a história. Essa é a verdade. O que está acontecendo é exatamente isso. Vocês decidam se temos de continuar a fazer isso.

Greenwald: Você pensou sobre qual será a resposta do governo dos EUA ao que você fez? O que vão dizer de você, que vão tentar desmoralizá-lo completamente, tudo que podem tentar fazer a você?

Snowden: Sim, posso ser sequestrado pela CIA. Vão me procurar. Ou qualquer outro dos envolvidos. Eles trabalham em íntima colaboração com vários outros países. E podem contratar gente de grupos clandestinos.[1] Qualquer dos seus muitos agentes e contratados. Há uma célula da CIA bem aqui na esquina, e o consulado dos EUA aqui em Hong Kong. Com certeza, vão estar muito ocupados na semana que vem. Esse é um medo que terei de carregar durante o resto da minha vida, dure quanto tempo durar.

Ninguém pode levantar-se contra as agências de inteligência mais poderosas do mundo e supor que não haverá riscos, porque são muito poderosos. Na verdade, ninguém pode levantar-se contra eles. Se quiserem acabar com você, conseguirão encontrá-lo. Mas, ao mesmo tempo, você tem de decidir o que realmente é importante para você. Se você estiver disposto ou interessado em viver sem liberdade alguma, mas confortavelmente, se você estiver interessado em aceitar isso… E há muitos que aceitam, é da natureza humana. É possível levantar todos os dias, ir trabalhar, receber o pagamento, aquele monte de dinheiro em troca de relativamente pouco trabalho e contra o interesse público, depois voltar para casa e dormir à noite, depois de assistir aos seus programas preferidos de TV.

Mas se você dá-se conta de que você ajudou a criar esse mundo, e que as coisas serão ainda muito piores para a próxima geração, e a outra, e a outra… Porque você ajudou a ampliar as capacidades desse tipo de arquitetura da opressão. Então você começa a ver que você está disposto a aceitar qualquer risco e que não importa o resultado, desde que o público consiga começar a tomar as próprias decisões sobre como fazer as coisas.

Greenwald: Por que as pessoas devem preocupar-se com estar sob vigilância, com estarem sendo vigiadas?

Snowden: Porque mesmo que você não esteja fazendo nada errado, mesmo assim você está sendo vigiado e gravado. E a capacidade de armazenamento desses sistemas cresce ano a ano, e cresce muito, em tal ordem de magnitude, que já estamos chegando ao ponto em que gravam tudo também de quem não esteja fazendo nada errado. Basta que surja alguma suspeita. Algum suspeito erra um número e o telefonema acabe chegando ao seu telefone. A partir daí, eles podem usar esse sistema e voltar no passado, para examinar cada passo que vc tenha dado, cada decisão que tomou, cada amigo com quem conversou. E podem atacar você, lançando suspeitas sobre qualquer um, sobre qualquer vida, por mais inocente que seja. E podem pintar qualquer um, como se fosse bandido.

Greenwald: Estamos sentados numa sala em Hong Kong, porque você optou por vir para cá. Fale um pouco sobre por que escolheu essa cidade. Já há quem esteja dizendo que vc escolheu buscar proteção num país que, para muitos, é o rival número 1 dos EUA: a China. E que você estaria, essencialmente, procurando ajudar um inimigo dos EUA, ao qual planeja pedir asilo. Você pode falar um pouco sobre isso?

Snowden: Claro que sim. Há algumas coisas a dizer, que, em certo sentido, estão incorporadas na ideia de quem questione eu ter escolhido Hong Kong. A primeira delas é que a China seria inimiga dos EUA. A China não é inimiga dos EUA. Há conflitos entre o governo dos EUA e o governo da República Popular chinesa, mas as pessoas, os cidadãos, nós, de fato, pouco nos incomodamos com aqueles conflitos. Os dois países comerciam livremente, não estamos em guerra, não há qualquer conflito armado, nenhum dos lados tem qualquer interesse em qualquer conflito armado. Os dois países são os principais parceiros comerciais, um do outro. A China não é nação inimiga dos EUA.

Além disso, Hong Kong tem forte tradição de liberdade de manifestação. As pessoas pensam ‘Oh, a China, a Grande Muralha Firewall’. A China continental mantém restrições significativas à liberdade de expressão dos cidadãos, mas o povo de Hong Kong tem longa tradição de protestar nas ruas, de fazer ouvir suas posições. A internet não é mais filtrada aqui que em qualquer país ocidental, e acredito que o governo de Hong Kong é realmente independente, em relação a muitos dos principais governos ocidentais.

Greenwald: Se sua motivação fosse causar dano aos EUA e ajudar os inimigos dos EUA, ou se seu motivo fosse alguma ambição pessoal, de ganhar muito dinheiro, você sabe que poderia ter dado outro destino às mesmas informações e documentos?

Snowden: Ah, sei, sim, com certeza! Qualquer pessoa, na posição em que eu trabalhava, com acesso e com as capacidades técnicas que eu tinha, poderia facilmente contrabandear informação, passar informações adiante, vendê-las no mercado livre russo. Sempre há interessados. Eles (e nós) mantemos sempre uma porta aberta para esses contatos. Nunca parou de haver interessados. E eu tinha acesso total às relações de todos os agentes que trabalham na Agência Nacional de Segurança, de toda a comunidade de inteligência dos EUA, de agentes infiltrados em todo o planeta. A localização de cada unidade, a missão de cada uma, e muito mais. Tinha acesso total a todas essas informações.

Se eu quisesse causar dano aos EUA?! Eu podia derrubar todo o sistema de vigilância em algumas horas, numa tarde. Mas isso não me interessava. Acho que todos os que criticam o que eu fiz devem pensar no que fariam se estivessem na posição em que eu estava. Se vivessem via boa, no Havaí, no paraíso, ganhando muito, muito dinheiro. Qual seria o limite de cada um? O que teria de acontecer, para que cada um decidisse deixar para trás tudo aquilo?

Meu maior medo, em relação a tudo isso e ao resultado que possa advir para os EUA, depois das revelações que fiz, é que nada mude… As pessoas lerão nos jornais sobre o que distribuí. E poderão ver até que ponto o Estado chegam, para assegurar poderes excepcionais só para eles mesmos, poderes unilaterais, para criar controle cada vez maior sobre a sociedade norte-americana e a sociedade global. OK… Mas pouca gente estará disposta a assumir os riscos necessários para mudar, realmente, tudo isso. Para obrigar os políticos eleitos a assumir a defesa, real, do interesse dos cidadãos eleitores.

E nos próximos meses e anos, as coisas só tendem a piorar, até que, um dia, as políticas comecem a mudar. Porque só a política tem capacidade para controlar as atividades e os poderes de vigilância do Estado. Até em nossos acordos com outros estados soberanos, entendemos que seja determinação política, não determinação por lei. Até lá, continuarão a ser eleitos líderes que dizem “A crise é grave, enfrentamos perigos terríveis em todo o mundo, surgiu uma nova e imprevisível ameaça e, por isso, precisamos de mais autoridade, de mais poder”. E não haverá coisa alguma que o povo possa fazer, depois que chegarmos àquele ponto, para opor-se a eles. Será tirania de porteira-fechada (orig. turnkey tyranny).

Em http://www.diarioliberdade.org/mundo/direitos-nacionais-e-imperialismo/39166-edward-snowden-n%C3%A3o-quero-viver-em-sociedade-que-faz-essas-coisas.html

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Assange: “EUA querem uma confissão falsa”

Posted by iscariotes em 5 de junho de 2013

Fonte: Blog do Lino

Há dois anos tive a oportunidade de passar 3 dias com Julian Assange, na casa de campo inglesa onde ele cumpriu sua prisão domiciliar, para fazer a matéria de capa da revista Trip de maio de 2011 – fui redator-chefe da revista até janeiro passado. Nas salas espaçosas e nos quartos, a mobília de época convivia com dezenas de laptops, cabos e enormes HD externos. Na porta da geladeira da cozinha no casarão do século XVIII, um imã gritava solitário: “Free Bradley Manning”.

Nas longas conversas com o australiano criador do WikiLeaks, o nome do soldado era aparecia com frequência. Em um trecho inédito da entrevista reproduzido a seguir, Assange afirma que são duas as intenções do governo americano ao coagir o jovem militar responsável pelo vazamento de 250 mil cables, como são chamados os comunicados das embaixadas americanas à Casa Branca. A ação do jovem Manning em 2010, então com 22 anos, expôs ao mundo a forma como os EUA enxergam e se relacionam com o mundo. Manning começou a ser julgado na segunda-feira 3 de junho. Mas vale recuperar as palavras de Assange sobre o que ele acredita serem as motivações para sua detenção pelo governo americano:

“Primeiro, Manning foi preso e está mantido nestas condições sombrias, em uma solitária, para que ceda. Querem que ele faça uma confissão, que diga que deu documentos para nós e, mais, que conspiramos junto com ele para conseguir tais documentos. Dessa forma eles ganhariam um argumento para indiciar-nos por conspiração e espionagem. Querem obrigá-lo a fazer uma confissão falsa que leve a esse tipo de conexão”.

O criador do WikiLeaks continua, com sua calma habitual: “Em segundo lugar estão fazendo isso com Manning para não perderem o controle sobre os militares. Eles se preocupam com a existência de um soldado que não seguiu as ordens. Mas Bradley viu violações de direitos humanos dentro do aparato militar dos EUA e causou tremendo constrangimento para o exército americano ao entregar esse material para a imprensa. E, claro, não querem passar a ideia de que generais não conseguem manter o controle sobre os soldados. Usando-o como exemplo, outros soldados vão ficar em seus lugares e cumprir suas tarefas. Dar à imprensa material como esse iria conter as práticas abusivas do exército americano, e esse é um ponto-chave das forças armadas daquele país”.

Em http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-lino/assange-eua-querem-uma-confissao-falsa-1314.html

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