Entulho

Distinguindo o trágico do supérfluo

O maior grileiro do mundo

Posted by iscariotes em 8 de junho de 2011

Fonte: Caros Amigos, edição 102 – setembro de 2005

Por João de Barros

Cecilio do Rego Almeida é um paraense corpulento, de 75 anos de idade, cabelos inteiramente brancos e voz tonitruante, que enriqueceu construindo obras públicas – no Brasil e no exterior. Seus olhos, quando não estão ocultos sob os óculos escuros Armani, parecem dois canos de uma carabina dupla pronta para disparar sobre o interlocutor.

Com patrimônio que ele mesmo estima em algo como 5 bilhões de dólares, Cecílio já apareceu na lista da revista Forbes entre os cem homens mais ricos do mundo. A empreiteira dele, a CR Almeida Engenharia e Construções, é o quarto maior grupo econômico privado do Brasil – e a principal construtora -, com patrimônio de 3,274 bilhões de dólares, segundo a publicação Melhores e Maiores da revista Exame, do ano passado.

Dom Ciccillo, como é chamado pelos íntimos, tem gênio explosivo e teatral – e hoje é refém do temperamento que sempre cultivou. No passado comparava-se a uma bulldozer, a barulhenta máquina de terraplenagem usada na construção de estradas, cuja lâmina, enorme, derruba os obstáculos naturais de matas fechadas, transformando-as em trilhas.

Ah, mas não fossem os muitos “filhos da puta’, como ele classifica, que perpassaram seu caminho – da família aos negócios -, a vida do empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, o dom Ciccillo, estaria infinitamente melhor. Nesse instante, por exemplo, ele não estaria às turras com autoridades da República, como o Ministério Público Federal, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) nem com o Instituto de Terras do Estado do Pará, o Iterpa, por causa do megalatifúndio que alega possuir em Altamira, no Pará, maior do que o estado da Paraíba, razão de seu título de maior grileiro do mundo.

Dom Ciccillo se diz dono de duas áreas amazônicas que totalizam quase 6 milhões de hectares. Uma é a fazenda Xingu, de 1,2 milhão de hectares, formada a partir de 1997, pela compra de antigos seringais, ao longo do rio Xingu, que pertenciam ao espólio de uma certa família Moura. Segundo a Superintendência do INCRA, a área da fazenda Xingu se sobrepõe às reservas indígenas do povo araueté, no igarapé Ipixuna, paracanã, na reserva Apyterewa, e à Floresta Nacional do Xingu. Além disso, a descrição do perímetro de todos os seringais que compõem a fazenda – seringais Forte Veneza, Humaitá, Belo Horizonte, Mossoró e Caxinguba – não bate com as coordenadas geográficas contidas nas escrituras.

A outra, a fazenda Curuá, de 4,772 milhões de hectares, é uma vastidão quase intocada. Rica em biodiversidade, sua floresta nativa hospeda cerca de 350 espécies de árvores, 1.400 de vertebrados, quinhentas de peixes e uma quantidade não estimada de insetos não catalogados pela pesquisa científica. Pontilhada por dezenas de rios perenes, muitos deles navegáveis, a região é abundante em madeiras, nobres como o mogno e em reservas minerais como o ouro.
Ocupando mais da metade da vastidão florestal chamada Terra do Meio, a Curuá, também conhecida como Ceciliolândia em alusão ao suposto proprietário, abriga ainda três terras indígenas (das tribos xipaia, curuá e caiapó-baú-mecranoti), a Floresta Nacional de Altamira e dois assentamentos do INCRA (Nova Fronteira e Santa Júlia). Por lá vivem umas duzentas famílias de ribeirinhos e extrativistas, distantes horas de barco entre si, em situação de seno-abandono – quase todos analfabetos e sem certidão de nascimento.

(…)

Para as aspirações de Cecílio não podia haver coisa melhor do que o golpe de 1964. À fome dos militares por obras juntou-se a vontade de comer de Cecílio. Cedo, mão e luva perceberam afinidades que os aproximariam por longo tempo – a ponto de o magnata falar do período com imenso carinho ainda hoje. O auge da união coincide com o tempo mais bravo da repressão política da ditadura, o do general Emílio Garrastazu Médici. A CR Almeida abocanhou no período 37 grandes obras do governo federal, entre as quais a Estrada de Ferro Central do Paraná, a pavimentação da rodovia Belém-Brasília, a Rodovia Rio-Santos, o terminal marítimo do porto de Sepetiba, entre outras.

(…)

No dia 18 de abril passado, dom Cecílio seguinte entrevista a Caros Amigos:

Vamos seguir a linha do tempo. Como era tratar, durante o regime militar, essa questão de obras, que naquela época servia à propaganda oficial do governo, da Transamazônica, do lema “País que vai pra frente”? Gostaria que o senhor fizesse uma análise desse período.
Vou te responder: entendo que foi uma ditadura, mas a mais leve das ditaduras. Hoje existe uma ditadura do PT mais forte do que a dos militares. Se você pegar o primeiro marechal, o Castelo Branco, esse homem foi um grande estadista. De total probidade. Levou gênios para o seu governo, como o Roberto Campos, o Bulhões. Só esses dois nomes transformaram o Brasil. Peguei obras nesse governo Castelo Branco. Eram concorrências. 0 Costa e Silva durou muito pouco tempo. Em seguida entrou o Garrastazu Médici. Eu sei que foi um governo duro. Houve mortes – houve um negócio lá no Norte do Brasil – que eu condeno. Mataram o Hgrzog durante o regime militar, mas na época ficava tudo na base do ouvi dizer (que foram os militares). Igual ao que faz hoje esse relator da CPMI da Terra, que fica só na base do que ouve dizer, do que está nos jornais. Bem, mas no Médici houve muita obra, trabalhamos muito. Ele tinha um grande ministro a quem chamavam de ladrão, o Andreazza. Um absurdo o que fizeram com esse homem. Ele morreu pobre, de câncer, e a família não tinha dinheiro para enterrá-lo. Fui um dos empreiteiros que deram dinheiro. Nunca houve a menor corrupção nossa com o Andreazza. Uma coisa fantástica: você ganhava dinheiro e obras e tudo sem ter de pagar corrupção.

Como se faz a cabeça do empreiteiro para aceitar o esquema do caixa 2, a corrupção, o financiamento de campanha? É na base do, se não der, não participa?
Depois da lei 8.666, e mesmo antes dela, havia a concorrência. São os atestados que a pessoa tem. Daí inventam tudo quanto é manobra para tirar esse, pôr aquele. É inventada a manobra. Quem criou isso muito foi o genro do Antônio Carlos Magalhães, que é meu inimigo, um grande filho da puta chamado César Mata Pires. Ele inventou a coisa mais fantástica. Inventou franchising de balcões de corrupção. Conseguiu trezentas emendas no Congresso Nacional para obras dele. E eu destruí essa boca dele, fui eu.

(…)

Normalmente, quanto é a bola?
Não, isso eu não vou dizer.

E no governo do PT houve alguma mudança?
Não sei se existe porque eles não fizeram nada. Dois anos de governo sem nada, nada foi feito. Então não posso falar. E dessas obras futuras nem posso dizer porque nem saíram os editais. Mas acho que, com as parcerias público-privadas, a corrupção em obras no Brasil virou a página. Porque, na PPP, você é que entra com o dinheiro. O governo dá a concessão. Veja a nossa obra na Imigrantes. Ela consumiu 400 milhões de dólares, sem um único centavo do governo – zero. O trabalho principal foi o ambiente, uma coisa fantástica. Recebeu prêmios no estrangeiro. Você constrói para ser o dono, então isso vai sanar esse aspecto. Vai estimular a competição entre as empreiteiras.

E não vai acirrar o ânimo entre vocês?
Não. Vai ter para todos. E você não estará fazendo obras para o governo, mas para você mesmo. Você vai ter a concessão por vinte, 25 anos, vai fazer o melhor tipo de obra com o menor custo ao longo do tempo, não é isso? Senão, você perde dinheiro. Porque daí o panaca que passa de carro paga o pedágio. Também tem casos em que a gente paga uma taxa ao governo.

(..)

Entra algum vagabundo na sua casa?
O pior é que de vez em quando entra.

E o que você faz?
Vou para o banheiro onde eles colocam a mim e a minha família, enquanto rapelam a casa.

Chama a polícia…
Chamo a polícia. No meu caso eu tenho granadas. Tenho aqui em Curitiba e tenho em Morretes. Granadas.

Como o senhor agiria no meu caso?
Eu faria exatamente como você fez. Se eu estivesse com minha família, meus filhos pequenos, eu tirava meu relógio, tome o relógio, só não quero que façam nada com a minha mulher. 0 melhor banheiro que tenho para vocês me prenderem é aquele, tome a chave, me prendam lá. Você não foi covarde, foi inteligente. Deve ter sido preto esse filho da puta que entrou, né?

Não. Um mulato e dois brancos.
Brancos… deviam estar cheirados. Muito bem. Eu tenho uma propriedade, uma fazenda, vamos dizer, porque eu vi um palhaço do Paraná.. Porra, com uma indústria lá dentro, o melhor em matéria de plantei, de gado. Você acha que eu vou deixar vagabundo entrar e fazer churrasco com o meu gado?… Milícias? Não. Eu faria treinamento para os meus operários, com calibre 12. Treinava os meus funcionários a se defenderem. Que direito tem esse filho da puta, esse maluco do Pedro Stedile? Ele não quer a reforma agrária, ele quer a revolução. Ele quer alcançar o poder, esse idiota. Você acha que isso é uma coisa de coitadinho? Faça um somatório de tudo o que produziram todos esses assentamentos: uma merda.

(…)

Estamos no fim… Mais duas perguntinhas. Analise o governo Lula.
Eu só posso analisar da seguinte maneira. Minha mulher votou no Lula e eu também. Interessante foi o seguinte. Eu votei aqui no Paraná, ela foi para São Paulo, votou no Lula, tomou um avião para os Estados Unidos. A filha dela estava estudando lá. Ela tem 52 anos. Infelizmente não tenho nenhum filho com ela, devia ter, o filho nós perdemos, eu queria, tenho certeza que seria formidável ter um filho com ela. Bem, eu vim para casa, estava em casa e pedi para botarem frutas, queijinho, bolacha, pus assim no lado da minha cama. E 5 e pouco da tarde ia aparecer o Lula, ele já ganhou, eu quero ver esse homem, conhecer a alma desse homem. Gravei tudo em videocassete. E notei uma coisa interessantíssima, a de que ele era um companheiro fora do comum. Que ele tinha uma vontade doentia de fazer bem para o Brasil. Que ele falava como coração. Que ele respeitava a mulher dele. Você já notou como ele respeita aquela mulher? Não que ela mande nele, não. É o respeito do macho, que ela é agradável, mãe dos filhos dele. Fez promessas, achei meio difícil ele cumprir tudo aquilo que ele disse que ia fazer. Mas só esse milagre de ele levantar nossas exportações de 63 bilhões de dólares para 118 bilhões! Agora, tem erros incomensuráveis por causa dessa merda desse partido dele. A Marina Silva foi uma péssima escolha. Pegou uma indiazinha totalmente analfabeta e doente. E essa merda de governador que perdeu o governo do Rio Grande do Sul, um bicha, que é veado, o Olívio Dutra. Tem coisa mais ridícula do que aquele José Graziano, um que era da Fome, um barbudinho, nervoso, perdeu até o cheque que aquela nossa modelo deu para ele, de 50.000 reais, Gisele Bündchen. Pôr o Rosseto no Incra? Um comuna! Na Embrapa também cometeu esse erro. A Embrapa é um organismo fantástico, que atravessou governos. Ele mudou regras para botar uns caras do PT.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: